Apresentação

A Revista Domingueira da Saúde é uma publicação semanal do Instituto de Direito Sanitário - IDISA em homenagem ao Gilson Carvalho, o idealizador e editor durante mais de 15 anos da Domingueira da Saúde na qual encaminhava a mais de 10 mil pessoas informações e comentários a respeito do Sistema Único de Saúde e em especial de seu funcionamento e financiamento. Com a sua morte, o IDISA, do qual ele foi fundador e se manteve filiado durante toda a sua existência, com intensa participação, passou a cuidar da Domingueira hoje com mais de 15 mil leitores e agora passa a ter o formato de uma Revista virtual. A Revista Domingueira continuará o propósito inicial de Gilson Carvalho de manter todos informados a respeito do funcionamento e financiamento e outros temas da saúde pública brasileira.

Editores Chefes
Áquilas Mendes
Francisco Funcia
Lenir Santos

Conselho Editorial
Élida Graziane Pinto
Nelson Rodrigues dos Santos
Thiago Lopes Cardoso campos
Valéria Alpino Bigonha Salgado

ISSN 2525-8583



Domingueira nº 28 - Agosto 2026

Índice

  1. SUS EM NÚMEROS - por Lenir Santos

SUS EM NÚMEROS

Por Lenir Santos


Os números do Sistema Único de Saúde (SUS) são frequentemente apresentados como demonstração de sua grandeza e importância para a população brasileira. Milhões de procedimentos, atendimentos, internações, exames e medicamentos evidenciam a dimensão de um sistema universal e gratuito, presente de forma decisiva na vida dos brasileiros.

Entretanto, números absolutos, quando analisados isoladamente, podem produzir uma percepção distorcida da realidade. Para compreender efetivamente o SUS, é necessário relacionar esses dados ao tamanho e às características da população, ao financiamento público disponível, à distribuição regional dos recursos, às necessidades epidemiológicas e, sobretudo, aos resultados concretos para os usuários.

A magnitude dos números contrasta, em muitos casos, com problemas estruturais do sistema: filas e longos tempos de espera, dificuldades de acesso a consultas e tratamentos especializados, subfinanciamento, desigualdades regionais, judicialização, necessidade crescente de incorporação tecnológica e fragilidades na gestão pública.

A crescente participação de organizações sociais e outras formas de parceria com o setor privado também exige maior transparência, controle, avaliação dos custos, resultados e a pergunta sobre a provável captura do SUS dado a grandeza dos recursos transferidos tanto quanto o volume de serviços transferidos para o setor privado.

O financiamento constitui uma questão central. O SUS atende uma população de mais de 200 milhões de pessoas, enquanto os recursos públicos destinados à saúde permanecem limitados a 4% do PIB diante das necessidades crescentes. O setor privado aplica 5,7% do PIB para ¼ da população enquanto o SUS atende toda a população como 2/3 dos valores do setor privado. Ao mesmo tempo, o orçamento da saúde sofre pressões crescentes e constantes em nome do ajuste fiscal, pelo volume das emendas parlamentares, de despesas que não correspondem propriamente às atribuições do SUS, como as do Corpo de Bombeiros, recentemente consideradas como ASPS no tocante aos serviços denominados de “pré-hospitalares”, além, naturalmente, de ter que dar conta do financiamento de novas tecnologias, saúde digital, envelhecimento populacional e os efeitos das mudanças climáticas.

As parcerias público-privadas e a participação do setor privado podem desempenhar funções complementares, mas não devem contribuir para a fragilização da capacidade estatal de gestão, para a captura da gestão pública. A modernização da administração pública, o fortalecimento dos mecanismos de planejamento, regulação, controle, avaliação e a adequada definição das responsabilidades de cada setor são indispensáveis à sustentabilidade do sistema.

Assim, falar em “SUS em números” exige ir além da apresentação de grandes quantidades de procedimentos e serviços. É necessário comparar esses números com a população atendida, os recursos disponíveis, as necessidades de saúde, as desigualdades territoriais, a importância da incorporação de novas tecnologias e os resultados alcançados. A verdadeira dimensão do SUS não está apenas na quantidade de serviços realizados, mas na sua capacidade de garantir acesso oportuno, qualidade e integralidade do cuidado à população.

Em síntese, os números do SUS impressionam, mas a análise do sistema deve partir também de seus “números reais”: o tamanho das filas, o tempo de espera, o financiamento per capita, a distribuição dos recursos, a eficiência da gestão e a capacidade de responder às novas necessidades de saúde, especialmente quanto ao envelhecimento da população e a crise climática. É essa comparação que permite compreender, de forma mais equilibrada, a grandeza e, ao mesmo tempo, os limites e desafios do SUS para o seu adequado financiamento.




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