Apresentação

A Revista Domingueira da Saúde é uma publicação semanal do Instituto de Direito Sanitário - IDISA em homenagem ao Gilson Carvalho, o idealizador e editor durante mais de 15 anos da Domingueira da Saúde na qual encaminhava a mais de 10 mil pessoas informações e comentários a respeito do Sistema Único de Saúde e em especial de seu funcionamento e financiamento. Com a sua morte, o IDISA, do qual ele foi fundador e se manteve filiado durante toda a sua existência, com intensa participação, passou a cuidar da Domingueira hoje com mais de 15 mil leitores e agora passa a ter o formato de uma Revista virtual. A Revista Domingueira continuará o propósito inicial de Gilson Carvalho de manter todos informados a respeito do funcionamento e financiamento e outros temas da saúde pública brasileira.

Editores Chefes
Áquilas Mendes
Francisco Funcia
Lenir Santos

Conselho Editorial
Élida Graziane Pinto
Nelson Rodrigues dos Santos
Thiago Lopes Cardoso campos
Valéria Alpino Bigonha Salgado

ISSN 2525-8583



Domingueira nº 1209 - Outubro 2026

Índice

  1. A VELHICE E SEUS SIGNIFICADOS - por Lenir Santos

A VELHICE E SEUS SIGNIFICADOS

Por Lenir Santos


Viver mais e melhor é o que todos queremos. Contudo envelhecer tem muitos significados: individuais, sociais, sanitários. A velhice traz consigo o fenecimento do corpo e a sensação de que muitas coisas vão se esvaindo — os vínculos familiares, as amizades, algumas capacidades e possibilidades. Traz ainda o preconceito dos mais jovens, que parecem negar aquilo que um dia viverão. Viver mais é o que todos querem mas envelhecer não é agradável.

Tudo o que nasce morre. Isso vale para os seres vivos e também para aquilo que os seres humanos constroem: impérios, poder, riqueza, instituições. A morte, entretanto, parece muitas vezes uma ficção pela forma como vivemos e, sobretudo, pela maneira como se olha para os velhos. Sempre um olhar de desvalorização.

O Brasil está envelhecendo rapidamente. Diante disso, em diversos setores se discute o que fazer com os velhos, como cuidar, quanto custarão, que serviços precisarão. Discute-se mais os cuidados sociais, sanitários e seus custos e menos como viverão como seres desejantes.

Talvez essa seja uma das maiores contradições da velhice contemporânea: pensar nela como custo, como doença, como ônus para as famílias, Uma visão pesarosa.

Durante muito tempo, envelhecer esteve associado à experiência, à memória e à sabedoria acumuladas ao longo da vida. O velho era aquele que sabia, que tinha histórias para contar, que poderia transmitir sua experiência às gerações mais novas. Hoje, porém, o envelhecimento é frequentemente visto pela ótica da perda: perda da beleza, da capacidade, da produtividade, da autonomia, da saúde e, até mesmo, do lugar na sociedade.

No campo das políticas públicas, essa visão é bem frequente. Fala-se muito de doenças, medicamentos, exames, cuidadores, custos. O envelhecimento aparece, quase sempre, como uma conta a pagar, um ônus; mais gastos do SUS, dos planos de saúde, das famílias e do Estado. Pouco se fala sobre modos de vida mais prazerosos, sobre vínculos sociais, estímulos, convivência, autonomia, afeto e sobre a possibilidade de uma velhice saudável e produtiva. Como diz Mirian Goldenberg, uma bela velhice.

A palavra “velho” vem do latim vetulus, diminutivo de vetus, relacionado àquele que tem muito tempo de existência. É uma palavra que carrega, portanto, a ideia do tempo vivido como algo positivo. Não deveria carregar, pois, a ideia centrada na perda e no gasto, como acontece na sociedade de hoje.

No Brasil, convencionou-se considerar idosa a pessoa com 60 anos ou mais. A idade cronológica é importante para as políticas públicas, para a definição de direitos e para a organização da proteção social, mas transformar os 60 anos em uma espécie de fronteira entre o ser e o deixar de ser é outra coisa. Uma pessoa não se torna, de repente, incapaz, dependente ou desprovida de desejos porque completou uma determinada idade.

O que chama a atenção é justamente o papel que muitas vezes se reserva aos velhos: alguém que necessitará de cuidadores, fará mais exames, procurará mais médicos, aumentará as despesas do SUS e dos planos de saúde e será um peso para a família. Uma pessoa que estaria acabando, passando, deixando de ser. Como se já não tivesse um papel produtivo na sociedade e para si mesmo, desprovida de sonhos, desejos, autonomia; como se a sua vida pudesse ser resumida aos pontos negativos.

O avanço da idade não retira da pessoa a vontade de se sentir viva, produtiva, desejante e capaz. No entanto, parece que a sociedade e, muitas vezes, as próprias políticas públicas vão construindo uma imagem da velhice como um processo de desaparecimento. Aos poucos, a pessoa vai sendo despida de seus desejos, até que seu horizonte se resuma a ter alguém que dela cuide.

A sociedade envelhece a pessoa antes mesmo de ela se sentir velha.

São muitos os estereótipos. Um deles é apresentar a pessoa velha sempre em comparação com suas fotografias de juventude, como se fosse necessário dizer: “Veja como ela ficou”. As redes sociais fazem isso frequentemente, especialmente com os artistas. Como se envelhecer fosse um defeito. Como se o corpo envelhecido precisasse ser escondido, corrigido ou rejeitado.

Envelhecer não é uma doença. É uma condição da vida, e, diga-se, que todos desejam porque ninguém quer morrer. E a sociedade e as políticas públicas não se voltam para esse aprendizado de se sentir bem envelhecendo.

Aliás, há algo curioso na própria linguagem. “Idoso” é uma palavra utilizada pelas políticas públicas, pelas instituições e pelos documentos oficiais. “Velho”, entretanto, parece carregar outro sentido, mais humano, mais próximo da qualidade de vida. Imagine se Hemingway tivesse escrito O Idoso e o Mar, e não O Velho e o Mar. Rubem Alves gostava de fazer essa brincadeira.

O que interessa aqui é questionar a visão estereotipada da velhice, quase sempre apresentada pelo lado das limitações, das doenças e da necessidade de se parecer fisicamente menos velho, porque a velhice é feia e um peso para a sociedade e a família. Todos querem esteticamente, por exigência social, estar melhor, mas isso não pode ser uma obsessão, uma necessidade, mas sim um desejo bem balanceado. É preciso olhar para o velho de outra maneira para não empurrá-lo para a busca de milagres nem para o desleixo por ser um peso na sociedade e na família. É preciso vê-lo como um ser que tem aspirações, projetos, capacidade de afeto, criatividade. Um ser capaz de interagir positivamente com a família e com a sociedade, de produzir, aprender, ensinar e continuar fazendo escolhas sobre a própria vida.

É preciso também reconhecer que a sexualidade não desaparece com a idade. Ela não se resume ao ato sexual. Está no desejo, no afeto, na intimidade, no prazer da companhia, no amor, na possibilidade de sentir-se desejado e de desejar. Não se trata aqui de negar as perdas que o envelhecimento pode trazer. Elas existem e todos que tem a sorte de envelhecer, a sentem. O corpo muda, algumas capacidades diminuem, pessoas queridas partem, relações se transformam. Negar isso seria romantizar a velhice, que não é o caso. Reconhecer as perdas não significa transformar a velhice em perda.

Talvez seja essa a mudança de olhar de que precisamos: deixar de enxergar o velho apenas como alguém que precisa de cuidados e passar a enxergá-lo também como alguém que ainda cuida, trabalha, cria, ama, deseja, escolhe e participa.

A pessoa velha não perdeu o desejo de ser e de estar bem consigo mesma e com a sociedade. Deve significar continuar sendo — de outra maneira, com outras experiências, outras aspirações, outras possibilidades e, sobretudo, com o direito de continuar vivendo plenamente. Ressignificar a velhice é necessário porque envelhecer não deve significar deixar de ser.


Lenir Santos, é advogada, doutora em Saúde Pública pela Unicamp, professora colaboradora da Unicamp e presidente do Idisa (Instituto de Direito Sanitário Aplicado)




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